24/12/16

Oração

Oiro da noite
pó das estrelas
chuva de cinzas
à flor da pele
matéria negra
matéria fria
língua de fogo

rogai por nós

Domingos da Mota

21/07/16

Num ápice

    Admirável aquele
     cuja vida é um contínuo
     relâmpago

     Matsuo Bashô



Fosse a vida

um relâmpago contínuo,
sem o prestes ruído
do trovão, uma centelha
viva, um raio assíduo,
não a fria ameaça
do senão que,
num ápice,
apaga a chama breve
e deixa atrás de si, 
perdido o fôlego, as cinzas
dispersas de quem
teve um sopro activo,
sibilante e sôfrego.

Domingos da Mota


[inédito]

03/07/16

Poética

O verso deve ser duro
como fio de navalha
um relâmpago no escuro
uma faúlha na palha

o verso deve ter lume
mas sem fogo-de-artifício
o verso que acera o gume
o verso que apura o vício

Domingos da Mota

de Tríptico e outros poemas, em Triplov

25/06/16

Moradas

Da poesia não sei,
mas gostaria, contudo,
de saber, como direi,
por que razão fico mudo
de espanto, quase alegria,
quando encontro no caminho
um desvio que, diria,
poderá ser-lhe vizinho?
Se as moradas são poucas,
onde quer que ela esteja,
seja quem for que a faça
(se os poetas são loucos),
será lúcido quem veja
a sombra da sua graça?

Domingos da Mota

16/06/16

Sopro

O sopro nu, 
a voz despida 

de palavras e sons, 
o fôlego exacto 

da nudez cega 
de ouvido, num 

rasgo de silêncio
quase intacto.

Domingos da Mota

11/06/16

A página

Nem um ponto sequer
um risco apenas
uma linha

um traço
um arabesco
um rabisco de nada
um fonema

uma letra
uma sílaba de fresco
que maculem
a página

em branco:
iluminem a falta
do poema

Domingos da Mota

08/06/16

Subitâneo

O impulso inopinado
em busca do indizível
que resiste, obstinado,
inaudito, intraduzível,
ainda que se revele
num subitâneo fulgor
ou no lúcido papel
duma coisa sem valor
nem sentido, coisa pouca,
coisa de nada, talvez
um pico no céu-da-boca,
uma espinha que mal vês,
prevalece numa rouca
decantação da escassez.

Domingos da Mota