25/06/16

Moradas

Da poesia não sei,
mas gostaria, contudo,
de saber, como direi,
por que razão fico mudo
de espanto, quase alegria,
quando encontro no caminho
um desvio que, diria,
poderá ser-lhe vizinho?
Se as moradas são poucas,
onde quer que ela esteja,
seja quem for que a faça
(se os poetas são loucos),
será lúcido quem veja
a sombra da sua graça?

Domingos da Mota

16/06/16

Sopro

O sopro nu, 
a voz despida 

de palavras e sons, 
o fôlego exacto 

da nudez cega 
de ouvido, num 

rasgo de silêncio
quase intacto.

Domingos da Mota

11/06/16

A página

Nem um ponto sequer
um risco apenas
uma linha

um traço
um arabesco
um rabisco de nada
um fonema

uma letra
uma sílaba de fresco
que maculem
a página

em branco:
iluminem a falta
do poema

Domingos da Mota

08/06/16

Subitâneo

O impulso inopinado
em busca do indizível
que resiste, obstinado,
inaudito, intraduzível,
ainda que se revele
num subitâneo fulgor
ou no lúcido papel
duma coisa sem valor
nem sentido, coisa pouca,
coisa de nada, talvez
um pico no céu-da-boca,
uma espinha que mal vês,
prevalece numa rouca
decantação da escassez.

Domingos da Mota